Cada dia que passa me convenço mais que não sou uma mulher normal, ou diga-se convencional.
Enquanto a maioria das mulheres da minha idade regozijam-se em falar de filhos e netos, discutem receitas culinárias e comentam sobre o último capítulo da novela, eu sonho em ampliar horizontes e refinar meu treinamento em mergulho, para um dia, espero que num futuro próximo, eu possa mergulhar nos destroços de um submarino alemão.
Definitivamente não me enquadro no grupo de mulheres com o qual sou obrigada a conviver diariamente, tanto por questões de trabalho, quanto por relacionamento de filhos.
Isso me remete às lembranças dos meus 16 anos, quando minhas amigas só pensavam em meninos enquanto eu fazia pesquisas e lia tudo o que podia encontrar sobre a 2ª Guerra, Hitler, os alemães e o holocausto.
O fato de sempre ser diferente, nunca me incomodou, mas muito pelo contrário, sempre me incentivou a buscar por aquilo que sempre acreditei: que o ser humano é individualmente único.
Mas eu cresci, amadureci e fui mãe.
Apaixonei-me algumas vezes, mas quando amei de verdade, emburreci!
Então comecei a me anular; assumi a personalidade do ser amado e, então, comecei a perdê-lo.
O que talvez tivesse feito com que me admirasse e se aproximasse de mim, era exatamente meu jeito irreverente e único; mas como eu mudei, as coisas também mudaram...
Os anos passaram e por muito tempo continuei adormecida. Anestesiada para ser mais exata. E então a vida tornou-se insuportável!
Já não encontrava consolo em nada, mas ainda me restava Deus!
E foi à ele que supliquei.
Na sua infinita misericórdia, ele me ouviu e um dia eu acordei diferente e resolvi fazer coisas.
Nada absurdo ou espetacular. Nada que chamasse atenção, mas pequenas coisas que me completassem e me fizessem feliz.
Resolvi começar fazendo uma tatuagem e em quatro semanas eu já havia feito quatro, um piercing e estava com a quinta tattoo marcada.
Dois anos, oito tatuagens e sete piercings depois, separei-me e mudei com meus quatro filhos para o bairro onde passei minha infância e adolescência. Comecei, então, o resgate de minha personalidade original.
Apenas quatro meses depois, uma grata surpresa.
Cidade nova, casa nova, vida nova e claro, escola nova para as crianças. Na escola nova, amigos e professores novos... E então veio a primeira reunião de pais do ano letivo...
Ao chegar à escola onde meus filhos agora estudavam para a tal reunião de pais, notei que a minha filha de treze anos me aguardava no pátio com um grupo de amigos e fui em sua direção.
Ela, na sua inocência de filha, disse aos “novos” amigos:
“- Olha, a minha mãe chegou!”
e quando perguntaram-lhe quem era a sua mãe, ela, com a maior naturalidade, respondeu:
“- Aquela toda tatuada.”
Então, um amigo dela falou:
“- Olha, ela pode ser sua tia, vizinha, irmã ou amiga, mas sua mãe ela não é! Ninguém tem uma mãe assim!!!”
Os olhos verdes da minha filha então brilharam e ela respondeu ao amigo:
“- Pois é! Ninguém tem. Mas eu tenho e ela é a minha mãe!”
Nesse dia, eu tive a certeza de que havia, por fim, resgatado minha personalidade.
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